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O Monge, o Executivo e o Futebol

O que um Monge e um Executivo podem aprender com o Futebol? Quase tudo. No futebol é preciso definir um propósito a curto, médio e longo prazo, além de muito bem pesquisar as regras do embate, ainda existir um notório sentido comunitário da equipe de ponta a ponta, num esquema tático funcional, todos visando atingir as metas com disposição pessoal e nesse mesmo enfoque um sacrifício coletivo-solidário, de preferência com o grupo literalmente correndo atrás dos resultados também por puro prazer. Dar de goleada quando tudo funciona direitinho, e ainda assim, altamente profissionais sabendo conscientemente que um jogo por si não é tudo, uma eventual goleada não deve empolgar ou turvar visões maiores; devem ser todos por um, todos por todos, da preparação física à estratégia; do esquema tático ao desenho do jogo com dedicação total com um objetivo determinado em comum que é único e que vale ouro, vale o campeonato, vale a taça, vale o troféu, vale o título. Ser campeão não é pra qualquer um. Um jogador só não ganha o jogo, salvo raras e honrosas exceções.

O Executivo, medidas as proporções, passa por um caminho motivacional que é único. Tem um objetivo que é o motor que o nutre, viça estratégias, empenha ideais, alavanca lucros, claro. Um executivo trabalha com projetos. Tem que estar inserido nele de corpo e alma. Um Monge também tem o seu lado zen-filosófico-conceitual para a concentração plena, a consciência do todo num contexto de amplos horizontes, visando a postura equilibrada em que possa afirmar com coragem limpa e a consciência plena: -Vou em busca da verdade. E a verdade é santa. O Monge e o Executivo pensam – e têm que elucidar racionalmente o verbo Pensar – a partir de propostas e soluções, interesses e traquejos, sempre embasados em estruturas funcionais qualificadas, para os positivos resultados potenciais pretendidos. Esse é o eixo.

O Futebol ensina o confronto para o sucesso, onde vence quem se preparou melhor, usou a melhor funcionabilidade das peças bem distribuídas em campo; onde vence quem vê melhor o jogo, com mais lucidez, pensa claro e abrangente, assume a partida em pleno nó disposicional recíproco. E vira capitão de fato, torna-se um líder nato, o dínamo que ganha o clássico. De improviso só a finta, o passe, o instante-luz do arremate certo, de enxergar o lance antes, quase que uma visão. Mas não é pra qualquer um. Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, Tostão e Sócrates a parte. O futebol ensina o risco consciente e medido, a estratégia operacional certa para cada peleja específica, o potencial do adversário estudado a exaustão, cada peça do conjunto sendo por si mesma hábil e objetiva, para que os resultados grupais apareçam na sequência evolutiva. Cada time é uma empresa. Há metas. Cada técnico um monge calculista visando a perfeição?

Tudo é jogo de certa forma. Tudo é futebol enquanto uma luta de grupos, o gol é o lucro, a bola é o centro operacional de um núcleo condutor ao sucesso. Passe errado, derrota, fiasco em campo, pipocar na hora certa, tudo isso é bola fora, bola nas costas. Erro grave que joga contra. Uma equipe é uma empresa. A concorrência é pra medir quem é bom. O sucesso não acontece por acaso. Quando entram em campo os monges como Luxemburgo, Muricy, Carlos Alberto Parreira, Felipão, Tite, Leão, é que a equipe bem orientada parte pro rachão, adquire refinamento físico no entrosamento para a disputa. Do treino para o diálogo, com propostas técnicas e cada jogador certo no lugar certo, no preparo e na medida certa, quando todo o elenco operacional cria sentido de união em busca do resultado. A leitura estratégica do jogo vira molde funcional e comum a todos, como uma espinha dorsal de um verdadeiro time com pinta e pompa de campeão. Um troféu não é pra qualquer um e nem por acaso. Sorte? Rale em campo, dê a cara pro tapa e encare o resultado.

Ninguém ganha sozinho. Gênio sabe que tudo é soma, confronto, teste. Somos testados o tempo todo? Cada treinador feito assim uma espécie de monge pensador, tem seu estilo operacional todo próprio, além do domínio tecnicista do que tem em mãos e de como, no decorrer na empreita, tem que mudar peças, incentivar quando erram, cobrar mais empenho, para virar a partida, sair-se bem. Um jogo de xadrez em que as vezes, algumas peças têm que ser sacrificadas. Corra o risco ou se mate em campo, Não tem bola perdida. Cada executivo moderno sabe muito bem que, água-com-açúcar e improviso fora de hora, é para quem não tem noção de ganhos e obstáculos a serem superados. Amador pensa pequeno. Derrotados às vezes não enxergam a leitura do óbvio. O futebol, ao contrário do que veicula o adágio popular, não é uma caixinha de surpresas. Emoção é pra torcedor irado que pensa com o coração na ponta da língua, a vista turva. O que é difícil, é pra gente forte, determinada, conquistadora, que ensaia e treina tudo em conjunto. Futebol é conjunto. Empresa também. Sim, o futebol ensina. Surpresas acontecem. Zebras. Árbitros manés. Mas o fator surpresa é exceção, como um olé no irevir do suingue gingado do Mane Garrincha, um maravilhoso drible elástico do Rivelino, o potencial muscular, de arranque e criativo do Pelé que tabelava com a perna murcha do zagueiro adversário. Ou do Ronaldinho que ganhava porque pensava antes de pensar. Já pensou? Times bons na escalação, no papel, às vezes por falta de comando perdem feio. Alguns frágeis craques têm o ego doentio. Têm que ser cobrados pois não gostam de marcação homem a homem. E tempos de craques-bailarianos passaram. Neymar tem que aprender a cair, para não virar um Neymar Lacraia.

Marias Chuteiras pesam cabeças, consciências e estorvos bancários. Aliás, as chuteiras por si mesmas não funcionam. Alguns times até eventualmente fracos surpreendem. Isso quer dizer alguma coisa? Vivemos de desafios. O conjunto é tudo. Você vai querer perder pra você mesmo? Como entender aquela zebra? Que peça falhou? Ou as viradas depois de uma quase derrota já por três a zero. O que aconteceu? Ou de como o próprio Corinthians que num jogo da Libertadores da América perdia um jogo importante com dois jogadores a menos, e no entanto se superou, com raça, com ousadia do treinador, com a visão explicita, imediatista e emergencial de dois ou três craques virou a cara do duro jogo internacional, reverteu o placar, mesmo com o árbitro roubando pro adversário. Tudo é possível. Foi um show de competência em todos os sentidos que se somaram. O Monge, o Executivo e o Futebol se encontram no mesmo frio tabuleiro de empreitas. Todos visam um alvo. Quem pensa vence. Quem planeja pensa melhor. Ganhar é para quem bem avalia prós e contras, mesmo nas adversidades, no pega pra capar da hora, do problema… Essa é a ideia. Com o material humano que temos em mãos, temos que saber o que fazer. Não há peça de reposição para jogador com raça, senso crítico e lucidez limpa ali no trato fino da bola em campo. Esse faz a diferença. Líderes não acontecem por acaso. Nem cracaços.

Ganhar é para quem sabe sacar o andamento da partida, o devir, a própria probabilidade do resultado almejado; mexe no time que está perdendo, marca as peças chaves, tem competência racional-estratégica para ir pra cima do adversário ali no olho do furacão, no anticlímax do momento crucial, e mostrar, na prática, em campo, o espírito ganhador. Nada é de graça. Nada é fortuito. Tudo é um projeto de. Na vida também é assim. Problemas existem para resultarem em conquistas. Essa é a ideia da evolução da espécie, do currículo, do sucesso. Gerenciamento técnico-administrativo-funcional. Torcida não joga. Cartola não apita nada. Treino é treino, jogo é jogo. Árbitro passa despercebido quando é bom e os times jogam o jogo. Árbitro problemático quer aparecer mais do que a bola. Não se enxerga. Há os que sonham ser craques e acabam na arquibancada da vida, levando chapéu de falastrões da turma do amendoim. Torcidas organizadas são mal organizadas, às vezes nem torcidas são. São gangues. No jogo vale do cerca-lourenço ao drible da vaca, da embaixadinha a catimba, do chapéu à provocação-drible; o olé depois do jogo ganho com bela vantagem. Tudo a partir das consistências dos treinos, sempre visando o flanco fraco da zaga, buscando uma falha defensiva.

É na derrota que se conhece o campeão. Não há time imbatível. Há aprendizados nas perdas e ganhos. Você tem que potencializar planejamentos, ser competente na administração de egos em grupo, bancar estrutura, currículos, suportes, estratégias, planos, técnicas, tecnologias, metodologias, responsabilidades afins e objetivos cristalinos. Por etapas.

Ninguém ganha na marra, no grito, na véspera, ou no par ou ímpar. Monge e Executivo sabem o que almejam para o sucesso, qualquer que seja o espírito dele. Ser vencedor é gostoso. É um prêmio de competência. É isso e confiar, ou ficar no chove e não molha do chuveirinho viciado na área, confiando na força da torcida fanática; no gol contra do zagueiro cabeça-de-bagre, no árbitro dando um gol apesar do impedimento, ou do ocasional chute de bicuda de um Terto ou um Ataliba qualquer, quando o suposto clássico não mereceu sair do zero a zero. Saque o lance. Mire um alvo. Trabalhe em equipe. Não dê passe errado. Não pise na bola. Não chute o vazio. Não queira enfeitar se ainda estiver zero a zero. Vire o jogo a seu favor. Seja uma peça qualificada no conjunto do grupo. Não perca pra você mesmo. Nem queira acertar impedido. Seja o seu quadrado, faça a sua parte, lute e estude sempre para continuar no time, titular. Faça que tenham orgulho de você. Depois corra pra torcida.

Deus adora vencedores.

Vai ficar aí reclamando do bandeirinha?

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Goto

No tecido banal de nossos pobres destinos
É que à nossa alma, coitada, falta ousadia
Charles Baudelaire

Quando alguém diz que o Cyberpoeta e Professor Silas Correa Leite escreve muito, é porque não sabe que ele escreve desde os 16 anos em jornais de sua aldeia natal, Itararé, sua ‘Neverland’; tem mais de mil cadernos de rascunhos poéticos (de 200 pgs cada um) – reportagem no Metrópolis TV Cultura, SP, e na Minha Revista RJ – está em mais de oitocentos sites com os mais variados assuntos (poemas, contos, ensaios, artigos, resenhas, etc), até na América espanhol, na Europa e na África, tem prêmios importantes de renome, até no exterior, como Instituto Piaget, Lisboa, para não dizer que consta em mais de cem antologias literárias em verso e prosa, inclusive internacionais. E não apenas escreve muito, mas escreve muito bem, surpreende, polemiza, inventa tanto que já disseram: “Ninguém que é humano pode escrever isso”. Pois ele escreve.
Lançou até então vinte livros. Quando algum brincalhão cobra “Quando é que um livro seu vai explodir?”, ele responde do mesmo jeito, brincalhão e irônico: “Quando eu fizer um livro-bomba”. Silas está além de seu tempo, vai além de seu tempo, por não ser midiático, por assim dizer, e estando em mais de oitocentos sites como Observatório de Imprensa, Cronópios, Correio do Brasil e outros, é que foi tachado pelo site Capitu de ‘O Rei da Internet’. Algumas cabeças pensantes do mundo, inclusive do Brasil, só foram reconhecidas depois que morreram. Pois Silas possivelmente pode vir a ser mais um desses. Na Internet ele já domina e virou referência, como disse o Portal Imprensa/TV Cultura. Está em todas as redes sociais, quase cinco mil seguidores no Facebook. Você o procura na web e vai vendo do YouTube ao Orkut, do Twitter a tantos links, com twitterpoemas, twittercontos, ironias do link Silas e suas ‘siladas’ a pensadilhos (pensamentos trocadilhos) e pensagens (pensamentos mensagens, para não dizer de pensaversos e pensaVentos entre tantos neologismos weblustrais de alto nível inclusive criativo, que ele inventa de inventar, dizendo que do jazz nasce a luz.
Sua maior obra até então, tinha sido O RINOCERONTE DE CLARICE, primeiro livro interativo da rede mundial de computadores, onze contos fantásticos, cada conto com três finais, um final feliz, um final de tragédia e um terceiro final politicamente incorreto, destaque na chamada grande mídia por ser pioneiro, de vanguarda e único no gênero, entrevista ou reportagem em programas de TV como Márcia Peltier/Band/Jornal da Noite e Provocações, TV Cultura, entre outros, acabando por ser uma referencia em ebook que virou tese de mestrado e de doutorado. Depois ele lançou outros ebooks e mesmo livros impressos, a se destacar Porta-Lapos, Poemas, Campo de Trigo Com Corvos, contos premiados, O Homem Que Virou Cerveja, crônicas hilárias de um poeta Boêmio (Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia), e Desvirados Inutensílios, Poemas, Editora Multifoco, 2013, RJ, todos elogiados pela critica e com sites referendando-os e elogiando a surpreendente criatividade e o talento do autor.
Mal saiu deste lançamento que foi destaque na Feira de Literatura Itarareense, e lança agora o romance Goto; GOTO, A Lenda do Reino do Barqueiro Noturno do Rio Itararé, Editora Clube dos Autores, SP, e é sobre esse livro que já nasceu clássico que queremos falar. Goto, o masculino de gota, que, além do nome criativo, como sempre, tem tudo para vir a ser a melhor obra do autor a partir de então. Parece que Silas, a partir da batalha de Itararé, uma ‘histórica batalha que não houve’, resolveu colocar Itararé na consciência do mundo, e o Goto parece colocar também o rio Itararé com uma sua terceira margem idílica, a partir deste Goto, um épico.
Numa ótima narrativa bem situada territorialmente e em tessitura de prosa poética, personagens bem construídos e que vão se revelando em aspectos psicológicos e formadores aos poucos, o autor, na parte inicial apresenta o palco iluminado do circo historial todo do território-rio e suas beiras e margens, pântanos e brumas. E o personagem principal, Ari, que se autonomina Goto, vai contando histórias que colhe dos passageiros do rio e suas travessias, causos que não são desse mundo; e de seus passageiros navegantes de outras margens, almas penadas de outras dimensões. Causo por causo, história por “estória”, papos de bar, do passado, presente e futuro, como se ali fosse uma transversal do tempo, uma encruzilhada-rio, e assim, o menino deficiente físico faz do remo a sua muleta, ou de sua muleta de aleijado o remo, em que, com seu andar de segura peido, seu calcanhar de frigideira, vai saltando pocinhas-histórias, voando nos remos, nas asas do rio, na própria imaginação-rio. Silas arrasa. Um romance e tanto. À venda como ebook e impresso por demanda no site www.clunbedosautores.com.br, Silas, mais uma vez traz Itararé ao centro de tudo, tudo é lá, tudo é Itararé, como se lá, sua ‘Neverland’ (Terra do Nunca), acontecesse coisas do arco da velha. Contador e navegante, Goto entra no ramo da história e navega em águas fartas, singrando por aí o romance.
Passageiros que já estiveram aqui, e o menino-navegador que tem o dom também espiritual-fantástico de fazer as pessoas contarem tudo para ele, começa a trazer moedas de outras paragens, de outros tempos, de épocas de Debret e Saint Hilaire no Brasil e na região de Itararé, que você não sabe qual é o rio e qual o personagem principal, mas vai, evoca, se aprofunda nas correntezas, mas sabe o rio criativo que o autor pincela no romance, cantando sua terra, seu rio que é o mais belo rio que corre por sua aldeia, seu Tejo tropical, particular e infinitamente lírico e, no caso, enlivrado em grande proporção de grande livro.
O guri-ribeirinho, com suas mãos de pardal, suas mãos de água e sua alma-rio, adoece e vem visitas do tempo do imperador, de escravos a bandas de circos franceses antigos (almas de antigos naufrágios?), quando começa a colecionar moedas de gorjetas de uma outra época, como se achasse uma ponte de ouro no fim do arco-íris. E vai por aí o romance em sua narrativa que cativa, abduz, como se o atiçado leitor também tivesse nos finca pés da Canoa Faísca de Aladim, inventariando também as mil e umas noites do menino feito um Goto-Sherazade.
Fica a recomendação de leitura. Entre nesse barco-livro. Navegue com os remos de sua imaginação.
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Ratos SA

Nessa sociedade pústula S/A, vale mais a pose do que o conteúdo, vale mais a grife que a lucidez, vale mais a posse espúria do que o conhecimento e a espiritualidade, algumas pessoas que viram ratos, posam de almofadinhas, daí vc vê um rato belzeboy dizendo sobre outro rato bacharel, nossa, ele é médium, filósofo, funcionário público, e vc ri, faca entredentes, e pensa, um rato cheira o outro, e as ratazanas com pose dizendo de belezas e vaidades sem conteúdo, com suas mórbidas carências-facebook, carências-wathsapp, carências-instagram, entre as infovias efêmeras de ratos por ralos, elos por sequelas éticas, e vc ali, meio lontra curta metragem, meio ser, mas jamais rato porque vc é petralha da esquerda tubaína e mortadela como rotulam os ratos de antes, de agora, e ainda as sequelas de ratos improbos, reaças e analfas ratos-coxinhas-daslu, eleitores do Pinóquio de Chuchu da OPUS DEI. Já pensou que ratos de impérios?

Ser rato é cômodo, neofascista, de direita-penico, um asnoia, cérebro esponja da mídia amoral, mas rato que adora se achar criticozinho, sem fundo, mas cheio de verniz neoliberal, levando chumbo e se achando; rato de antros de escorpiões. Mal formado, clã de má índole, meio de ratos com patentes em concursados para o enriquecimento ilícito, ratos com cérebros de amebas, mas ainda assim ratos de terno, gravata, pondo dinheiro sujo em família, roubando parentes, criticando o pai frustrado e capenga, e sendo um filho corrupto, mas rato de meio que tem certezas absoluta de mesmices e achismos, quando não uma perua em casa tipo oxige-Nada, afinal, no poleiro também tem ratos grã-finos… todos chiques que poderiam vender tudo o que amealharam com hipocrisia e roubismos, darem aos pobres, e seguirem a Deus, mas tb tem ratos religiosos, que crime e pecado, hein? O castigo vem a cavalo? Venderam a alma para a corrupção e se acham… Não se enxergam? Ratos gordos, emperiquitados em ratoeiras sórdidas, se julgam enviados de Deus, eleitos… Desse jeito sou Dalai Lama…

Rato é rato, tem aquela velha opinião formada sobre nadas, olho gordo, riquezas impunes, riquezas injustas, propriedades-roubos, na moita e na maciota levam vantagem em tudo, certo, se houver uma auditoria, uma ouvidoria, uma corregedoria, uma lavagem do imposto de renda dançam fácil, mas ratos dançam conforme a musica, a ocasião que faz o ladrão, e ainda posam de críticos, honestos, donos da verdade de ocasião, mas não topam brigas feias, não têm moral no currículo vitae, faltam argumentos, chutam logo, vá pra Cuba… E o pior rato é que pensa que vc é galinha morta… Ratos unidos, acabam vermes entre antros…

Tem rato doutor, rato autoridade, rato com religião certinha da silva que se ajusta à sua ratinidade, rato que acha que é espírito evoluído, rato que é artista, que é sabichão, rato com patente, rato branco, rato disfarçado, rato com fé espúria sem obras, rato que logra pai e mãe e posa de santo, rato de tudo quanto é jeito, não se afirmam em nada, quando descobertos dizem que não deram sorte na vida, ratos voluntários, que posem de caridosos, etc, e tal. Em qual curral de ratos vc cabe direitinho. Oremos?

Tem rato querendo ser Saint Hilaire, Chico Chavier, Baudelaire, Paulo Coelho, Cury, Bukovski, Madre de Calcutá, tem rato que funda igrejinha, idolatra o que for útil e rendoso, cria fama, deita na cama, faz nome, vende abobrinhas, cria ranço, finca pose, e quando se vê, o rato tá vestido pra manada… Há ratos poderosos, de antros, só esquecem que no céu não tem ratos, não entra, não forma, não aceita. Mas eles acham que sabem tudinho, leem eles mesmos, entendem a Bíblia pelo corte riscadinho deles, adaptado, ajustado, andam pisando em ovos, neuras, ranços, quando instados oram por vc, rezam por vc, clamam espíritos, se bobear, abduzem vc, convertem vc, e pianinho, vc entra no picadeiro deles pelas portas dos fundos, argamassa de nódoas trambiqueiras, paga promessa, monta firma fantasma para lograr o fisco e desviar o olho da justiça que cega tarda e falha (justiça cheia de ratos engomadinhos de toga, túnica e patentes de w.cs.); sai pelo ralo, cheiram a ralo, mesmo perfumados, escrevem pica-couve pro estrume deles, fazem parte do quadradinho… e arredondam vantagens para se sair bem e impune. Ratos tem gabaritos e senhas de sobrevivência entre familiares sem coroa de culpa, sanitário de podres e status de sitio? Vão vendo. Abandonam opiniões saradinhas quando lhes mordem os podres calcanhares de palha, nem Freud e nem Marx explicam. Alguns ratos são o fino da fossa. Pobres, se acham ricos. Mestiços se acham brancos. Enganam bem. Logram familiares, traem esposas, amantes, quando precisam chegam de mansinho, depois de aboletados e corruptos até as fuças posam de ricos de colarinho branco. Ratos têm topete. Não cheiram e nem fedem, mas ostentam bem, com processos, protestos, ações de despejos contra, ações por dívidas de condomínios contra, velhacos, quem os vê, pensam: estão bem de vida honestamente… São unidos. Formam quadrilhas e se protegem com diversos nomes, clubes, instituições, dão carteiradas, compram bens de forma suja e fajutas, passam propriedades em seu nome por meios ilícitos, fazem vistas grossas para contrabandos, roubismos, vilões, produtos piratas, ratos de porões, ratos de gabinetes, ratos de panelas, esquemas de meio. Se bobear, viram benfeitores, heróis de família, acabam impunes, sem os filhos saberem que foram ladrões, corruptos furtaram com privilégios, furtos qualificados e maquiados, crime continuado, peculatos, tudo com documento de corrupção passando a limpo nas ratoeiras de trabalho na mão grande, abusando de cargos, funções, crime qualificado e afins.

Ratos tem poses, não valores. São despolitizados pelo avesso do avesso do haver-se. Cheiram naftalina, creolina, cocaína; se tomassem rivotril, deixariam de gostar de supositório de Pinóquio de Chuchu. Mas ratos vivem entre os escombros, restos, frestas, mesas de cantos, e deixam suas fezes-opiniões prontinhas de cultura de almanaque. Não topam debate. Não têm limpezas íntimas e de percurso para toparem celeumas. Fogem de verdades e transparências como o diabo da cruz. Abusam de comodismo, e onde podem se encostam, para ganharem benesses desviando foco, parecendo uma coisa e sendo outra, entre gatos pardos miam, se sacados e penalizados posam de vítimas, é um salve-se quem puder. O tempo é um terrível juiz a espera dele numa encruzilhada do futuro que logo calha, e seu terrível peso de predador no devir depois do escarnio continuado das impurezas de percurso insano para uma sobrevivência facilitada no dezelo moral e erro factual. Pipocam. Começam latindo baixo, falsos-humildes concordatos, entram em matilhas para serem podres poderes iguais, miam fora da casinha, obram fora do penico, depois perdem a vez e a voz, acabam sendo o que afinal a vida inteirinha foram: ratos em poses de leões cabritados. Ou cândidas galinhas ciscando pra trás?

Você os reconhece de longe, mas de perto são arrumadinhos, se correr a risca uma busca na justiça estão sendo vigiados, pareados, cedo ou tarde caem nas armadilhas da luz calçando escuridões, têm seus feudos, seus repentes, suas falácias de purinhos, mas rato que se preza, tem suas presas fáceis, seus embates datados, suas crias desmemoriadas, seus bastões higienizados para flagrantes, seus papeis trocados com logins espertos, malandros de escrivaninhas… senhas camufladas, testamentos em nuvens podres, rastros disfarçados, engodos com camuflos, um olho na curva e outro no instinto do medo-rabo. E são sempre pegos pelo acaso ou ocaso, vc vê o rabo que eles deixam…

Com o tempo, vão deixando pintas de honestos porque o caldo do inferno apura o sórdido terrível fim, e terão quer abandonar antros, becos, condomínios, navios, e voltarem ao lamaçal muito além da falsa pureza original, e o vale da sombra da morte começa a cheirar limbo, húmus, vermes contemplativos, e tudo se revelará sem encaixe, tudo será passado a limpo sem verniz, no tribunal da passagem, travessia, serão os piores acusadores de si mesmos, as testemunhas fatais na hora do jugo final. “Pesado fostes na balança, e achado em falta”. Maktub. Um dia é da caça, outro dia é do zumbi como sequela. O fácil frutifica engodos. O difícil açoda novos valores. A pior alta estima é a falsa estima. Não queremos santos. Mas nem ratos posando de. O pão que se coloca em casa é sagrado, ou não é? A comodidade adquirida de forma espúria tem seu preço venal? Ninguém deixa de ser pobre para querer ser da falsa elite suja impunemente. Escolhas. Referenciais. Vc tem medo de que? Um dia vc não será nada disso, nem rato. Ficarão as culpas pro cartório de Deus. E os herdeiros pagando o preço até a terceira geração/descendência. Se houver outra vida, vc virá piolho de rato, ou gato pardo fingindo que é o que não é? Ratos S/A. Não mexa no meu queijo.

O anjo que inventou a espada, virá sobre todas as cabeças e sentenças. Corações e mentes se abrirão. Verdades sairão do lume neutro. Como é que vc pode ter sido, se vc não foi, não poderia jamais ser e poder ser, não fez por merecer, não amealhou com lisura, nada justifica bens e valores, poses e posses, tua piscina de meritocracia é cheia de ratos como vc, preso por um fio?

Os ratos gordos abandonam os ratos menores no panteão da dor, na hora de nossa honra falsa, de nossa glória capenga, édipo manco, mãe enganada. Justiça seja feita nessa honra. Pague pra ver. O céu pode esperar. Veneno pra rato é na hora da morte que dói o imponderável? Justiça seja feita: se todos os ratos se dessem a mãos, como acabar com a bandalheira de formação de quadrilha corporativas, todos por ninguém?

O bicho vai pegar. Quem não sabe o limite do nível de ser corrupto, deixa sendas. Ah o chicote da sequela da pose fácil, facilitada, não merecida. Justiça é exemplicidade, não opinião, presunção de impunidade…

Vc está no olho do furacão. Vai encarar? Teu garbo era de pelancas. Tua vida turbinada de riquezas impunes foi uma fraude. Ratos de esgotos são fraudes sociais.

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Silas Corrêa Leite (Da Série “Chorando Sobre Deleite Derramado”)

Infancia Itarare

De um velho sabugo de milho
E quatro palitos de fósforos usados
Eu fazia um boizinho ou cavalo
Que puxava uma gaiotinha imaginária
Cheia de anjos, ilusões, fantasias

De uma lata de pescada Leal Santos
Mais vazios carretéis de linha
Eu fazia um jipe bem trancham
Que levava e trazia a gurizada
De toda a minha infância pobrinha

De uma caixa usada de Mate Leão
Eu fazia uma diligência com xerife
E assim vim construindo com imaginação
A minha infância cor-de-rosa
Em Itararé, na Vila São Vicente

Hoje de caneta bic e lápis de cor
Reescrevo meu mundo adultizado
Com saudades da infância; um vencedor
De uma maravilhosa Itararé de antigamente
Que é um circo armado dentro da gente

[Fonte de outros textos http://www.carmovasconcelos-fenix.org/Escritores/Silas-Correa-Leite/Silas-Correa-Leite-16.htm]

Fragmento de goto

21 de janeiro de 2020 às 17:47 ·
FRAGMENTO DE GOTO
A LENDA DO REINO DO BARQUEIRO NOTURNO DE ITARARÉ
ROMANCE, DE Silas Corrêa leite
Considerado o melhor livro do autor

A Dor da Última Viagem

Era a terceira vez aquela semana de outubro, que ela saía da bela casa no Bairro da Casa Verde na Zona Norte da capital paulista. Tomava um táxi especial para uma corrida que custava caro e era longa, e lá se ia entrevada pra Moema, bairro nobre da capital agitada, ver os escombros de ruas, casas e parques, entre monturos e restos de lixões do que eram as marcas de casas destruídas pelo acidente com o Voo 3737, que caíra perto do Aeroporto de Congonhas ao mal tentar o início da rota de Curitiba, e que ali, num acidente grave em pouso de emergência, vitimara todos os cento e treze passageiros, entre os quais sua filha única de nome Luz Andréia, e sua irmã Sandra Helena além de seu cunhado Ítalo Elisério Fernandes.

A dor da perda ainda de poucos meses atrás, estava em carne viva nalguma parte íntima de seu corpo. Não se consolava. Estava passada de dor, a estima era baixa, tivera depressão, vivia se socorrendo por assim dizer, apenas em fazer aquela viagem urbana cara, gastando o pouco que tinha de um emprego de professora universitária de Geologia da USP, e ali, entre os escombros de prédios queimados, muros desfeitos, ruas com buracos de explosões, ela ia atirada campear uma imagem qualquer, um sinal de paz, uma saudade táctil da filha Luz, da irmã caçula que adorava tanto, e do cunhado que era pintor impressionista e seu melhor amigo.

Os amigos do trampo entravam na conversa, davam palpites solidários, tentavam consolar como era possível, mas, no campus universitário da USP ela também se mostrava extremamente carente, desacorçoada, entregue. Em casa, com um cachorro doente de nome Tupi, e um gato cego de um olho de nome Calibre, a Professora-Doutora Isaura Casanobre Di Carli tentava mal-e-mal e porcamente sobreviver, vendo fotos antigas dos abraços, filmes coloridos de festins maravilhosos, curtindo o cantinho-quarto da filha Luz que arrumava todo santo dia, como se a esperar que, num milagre, a filha – num passe de mágica divina – um dia finalmente voltasse pra casa e dissesse que tudo tinha sido mesmo um pesadelo.

Isaura, quarenta anos, mãe solteira e cabeça feita, oriunda da Estância Boêmia de Itararé, interior sul de São Paulo, um metro e oitenta, branca com pele de seda, olhos negros como a alma da noite, encorpada e feliz até então, poderosa, despachada, determinada e libertária. Com aquele acidente trágico do que seria um sereno voo Curitiba-São Paulo pela Varig, tinha perdido a razão de viver, a própria razão de ser. Era outra pessoa. Parecia outra.

Os olhos antes brilhantes, murcharam. A pressão que era normalíssima, subiu. Passou a tomar remédios e a tentar se esconder em livros, teses, ensaios, ilusões, pois que sempre lhe dava um treco estranho e, sem chão, com a dor insuportável puxando o seu tapete, lá ia ela, com um táxi, sondar os escombros do que era o lugar em que o avião pousara já pegando fogo, antes de explodir, crendo que talvez ali naquele espaço de tragédia fatal desse também de empatar os escombros de sua alma, de seu coração, de sua pouca resistência ferida entre um abismo e o vazio que leva ao cárcere do nada.

Naquele domingo de antes de finados, não foi diferente. Parecia possuída. O dia dos mortos se aproximando, e ela, com a morte presencial nos olhos, nos gestos secos, nas palavras duras, e como se também na aura, no halo. Fincada entre remédios pesados de tratamento emergencial, ia levando a toada da vida louca. Mas não se entregava ao caminho da recuperação. Do cargo tirara licença, entrara em tratamento difícil, não aguentara o tranco das perdas, se apegara agora a parentes distantes de Itararé, entre cartas enormes e plangentes, demorados telefonemas caros, mas, no fundo estava mesmo perdida, totalmente transfigurada. O cálice transbordara.

Era uma casca de nós no oceano da vida embrutecida com sargaços.

Nem o domingo de sol reviçou sua vida; nem os pássaros bondiando a manhã de primavera calorenta lhe tiraram de si, muito menos os animais caseiros lhe traziam uma demão de aprumo íntimo. Passada, fora de si, tomou o táxi branco e foi trajetar sua via crúcis. Um veículo que rodou mais de vinte quilômetros sentido centro, depois garrou o bairro chique de Moema, em seguida pegou sentido de Congonhas, e, na travessa em que podia desembarcar, pagou a corrida, apeou meio que em transe, e se foi sozinha entre alguns moradores e curiosos já acostumados com aquela mulher com feição de fantasma, amarga e campeando saudades entre restos da aeronave, cruzes e velas, flores e pedaços de pneus, de tijolos e de estilhaços metálicos. Enquanto isso a Força Aérea Brasileira fazia perícias no local, tentando encontrar a caixa preta, em que pese já soubessem que os problemas tinham se originado no setor de manutenção do aparelho, pois com o tal neoliberalismo globalizador, a terceirização além de sugerir uma espécie de tropical neoescravismo ainda pagava mal, e os serviços técnicos e de manutenção eram precários, incorretos e insuficientes, como alguns funcionários da Infraero já denunciavam, sem que isso no entanto fosse resolvido, pois era tudo uma fachada na insana e amoral nova ordem econômica do mundo e seus impérios inumanos.

Lá estava na Rua Pássaros Azuis, quando garrou o sentido dos monturos, dos escombros, da desolação, do desmonte de um plano linear todo. Passara mais de vinte vezes por ali, sabia cada marca de explosão, cada pedaço de telha, cada naco de aço, como se esculpisse no íntimo uma imagem que lhe recuperaria, não a nave destroçada apenas, mas a sua alma andante, traria de alguma maneira a sua adorável filha Luz, seus entes queridos. Era uma via crúcis dolorosa como uma canga. Policiais, vigias, autoridades fardadas ainda iam e vinham por ali, mas já tinham ouvido dizer que a tipa estava louca com a perda bem marcada em sinais, destroços, neuras. Sabiam generalizadamente lidar com ela. Um espectro?

Ela é que não sabia lidar com as perdas, com o adeus, com uma ruptura tão ruim de aceitar. Tantos estudos e nada. Faltaria conteúdo? A vida era mesmo como se uma espécie de porta-lapsos. Fez o mesmo trajeto rotineiro. Tropeçou em pessoas, desvirou lânguida entre cães rueiros, pisou pedaços de parafusos enferrujando, sentiu o velho cheiro queimado de óleo, viu rugas no chão, tentou se desfazer das estrias da alma, mas estava depauperada, precisava ser internada e se tratar, não estar descascando feridas mal cicatrizadas, o que, certamente, a levaria ao inferno de tantos traumas novos, talvez até uma depressão e um final fatal, pois que, entre quizilenta e esquizofrênica, podia até mesmo atentar contra a própria vida, tal o desmanche do íntimo de si, na carranca de enfermidades interiores, terminais.

Era só mais uma visão, uma estadia, uma peregrinação. Uma lixação de foro íntimo. Depois se iria embora talvez mais aceitadora, não perdoando no entanto um Deus que lhe tirara a filha única, Luz, de mais de sete anos de idade, que era mesmo a sua inteira razão de viver plena e feliz. Desolada, era quase um fantasma ali, no cenário de angústias. Pensava na filha Luz: magra, loira, olhos da cor do mar, lábios finos, cabelos amarelos como o sol e em feitio de talharim. A menina tinha uma candura toda própria, uma serenidade fora de série, parecia mesmo uma artista, um anjo. Era a sua razão de ser mulher, mãe, fêmea, pessoa. Era todo o seu tesouro aquela menina sensível, inteligente, precoce, dada a tantas leituras e a compor desenhos primitivos.

Mas naquele dia uma coisa nova, surpreendente, aconteceu. Há um Deus?

Árvores arrancadas. Restos de pacotes perdidos. Arbustos queimados por querosene. Amontoados de tijolos. Papéis soltos entre etiquetas e plásticos. Marcas de horror, restos de brinquedos, malas, estilhaços de vidros. Já estivera ali, sabia de cor e salteado o mapa de uma dor que não vingara ainda a reconciliação consigo mesma. Estava insatisfeita e campeava rota de fuga. Não há sensações no esquecimento, já disse o poeta. Há um ponto de fuga na sofrência?

Estranhou aquele naco de uma espécie de tijolo queimado do lado. Esquisito. Na mente fotográfica não constatara aquilo anteriormente. Sinal de alerta. Instinto aguçado? Com o pé de bailarina direito em um mocassim trinta e oito de grife inglesa, verificou o espaço completo e viu alguma coisa. Sentiu um elástico inexistente puxar um favo no peito amargo. Toleima? Há sabedorias na morte.

Se abaixou e tirou do fundo de uns amontoados, o maior pertence de uma busca que talvez findasse ali, naquele ato de se abaixar e se levantar. Um álbum? Conhecia-o.

Deus do céu!

Reconheceu de presto a letra na capa do caderno pequeno e delicado de anotações pessoais da filhinha Luz. A letra fina, delicada, quase um desenho de grafia especial. Na capa o nome escrito da filha em alto relevo, uma figurinha de chiclete mal colada e o cor-de-rosa de plástico cheio de fumaça, riscado, manchado, umedecido, como se aquele achado viesse de dentro de algum lugar que pegara fogo, ou de dentro de um inexplicável devão de um lugar muito além do incompreensível, muito além da existência, muito além da imaginação.

Isaura abriu aquele tesouro já debulhando pétalas de lágrimas. Cada ato era um desmonte. Cada movimento um balé de sofrência. Sentou-se na calçada com marcas de rasgados por ferro e fogo, e foi como uma louca até as anotações eventuais numa folha de data possivelmente de dias anteriores, virando, folheando, campeando sinais, lições, e lá estava a filha dizendo do bolo de limão que a mãe fizera na tardinha da véspera do acidente, da expectativa louca da viagem pra Curitiba com os tios adorados.

Então Isaura sentiu uma presença no mais ferido de si. Um toque? Um leque parecia abanar seu espírito atribulado. Seixos íntimos.

Com a mão trêmula abriu a página do dia do acidente, cinco de outubro. Não acreditou. Estavam lá as narrações de momentos que antecederam a viagem, a filha descrevendo tudo da casa até o aeroporto, pior, narrava também do que sentira dentro do avião, e, ainda, Deus do céu! descrevia os últimos momentos… que eram eternos… para sempre… inacreditáveis…

(Preparou-se para chorar) – Esgotamento nervoso. Célula mártir. Nau frágil nos bastidores da dor. Pertencimentos de libertação – do carbono querendo ser diamante…

-Querido Diário

Vou com meus tios adorados, Tio Ítalo e Tia Sandra irmã de minha mãe, visitar uma distante prima graciosa da família, que é de Itararé mas mora atualmente em Curitiba, e que dizem que é a melhor cidade do mundo para se viver. Vamos lá conferir isso por uns dias, passear, prosear, curtir. Tô ligadíssima.

Estou feliz, em que pese uma certa preocupação estranha nalgum lugar qualquer da minha cabeça, como se uma enxaqueca que ainda virá, algo realmente muito estranho, mas é exatamente isso o que eu sinto. Nem piei o problema pra minha mãe, ou ela empacava e não me deixava vir. O embarque está atrasado porque o tempo fechou em Congonhas, fez frio, choveu, e eu estou aqui no saguão do aeroporto lotado, meu tio-coruja foi comprar jornal, minha tia foi buscar um sorvete de morango, e eu escrevo insistentemente, ao mesmo tempo em que olho gente produzida bem apressada e bonita indo e vindo, o serviço de informação dizendo de voos que chegam e saem fora do horário, alguns sinais de pânico, correrias, informações, movimentos, agito. Adoro isso. Adoro esse lugar. Estou muito contente, tudo é muito legal. Minha primeira viagem de avião. Mamãe não pode nos trazer pois tinha que ler uns ensaios e monografias de seus três alunos de mestrado, mas eu vim de táxi com meus tios que são apaixonados e felizes, e parecem eternamente em lua-de-mel, saradinhos e perfeitos que são, aliás, “sangues bons”, como diria o Tito, o cara com quem eu queria namorar mas estava só ficando, e que parece mesmo me curtir pacas, ele é “da hora”.

………

-Minha tia voltou. Tomamos sorvetes. Ela me trouxe bombons também. Trufas. Adoro chocolate. Meu tio lê jornal e ouve Beatles no walkman. O voo parece-me que deve sair logo.

…………………………………………………………………….

-Estamos no saguão de embarque. O telão digital informa que houve um pequeno problema com o avião no hangar. Deve demorar mais que o previsto. O sorvete estava uma delícia. Pego um jornal mas não consigo ler, empresto pra minha tia Sandra que é um doce. Meu tio tem experiência em viagens e tenta me animar exageradamente, contando causos de Itararé, sua terra de origem, além de implicar com minha blusa branca que mostra o umbigo. Pra um tio ele é muito ciumento, e, às vezes, mas só as vezes, algo quadrado e cafona também.
-Minha tia passa um pito nele, pois passou uma loira alta, oxigenada e se rebolando toda como uma geleia diet, e ele meio que disfarçadamente deu uma sapeada na perua, mas ganhou também um beliscão que pelo jeito doeu um pouquinho, pois ele murmurou algo, meio enfezado mas querendo disfarçar a dor, cara de pamonha.

-Estou dentro do avião. Estou com medo. Sinto alguma coisa no ar. Minha tia pega minha mão. Meu tio que se diz viajador, faz o sinal da cruz e beija o dedo polegar direito. Que velhaco e medrosão esse tio adorável. Não estou com medo exatamente. Não é isso. É só um mal pressentimento, talvez coisa assim de marinheira de primeira viagem. Mas para tudo tem a primeira vez, como tem a última. O avião está taxiando na pista. Estão arrumando o aeroporto. Vejo pela janelinha. Umas aeromoças falam isso e aquilo de rotina para o avião lotado. O piloto se apresenta e diz se chamar Rafael Corrieri, se captei bem. Estamos levantando voo. Interessante que vem um cheiro azedo de algum lugar, mais um chiado, me parece, tudo bem discreto, mas um chiado. Um vazamento? Sim, cheiro de queimado. Alguém estaria fumando sem poder? Vejo que uma aeromoça passa correndo por nós. Estamos no ar.

O piloto tenta falar de alguma coisa como complicações normais mas o som engasga. Há estática, o rádio de bordo falha. Não quero ouvir. Escrevo, escrevo, risco, desenho, rabisco, garatujo, tento esquecer isso tudo aqui e agora. Posso ver que alguma coisa ilumina a parte traseira e um calor estranho vem de trás de nós. Minha tia sem dizer um ai ou fazer um gesto de preocupação tem os olhos cheios de lágrimas. Meu tio está verde como o Hulk meu personagem de gibi predileto. Pelo olhar deles, pelo zunzunzum, pelo tumulto de falas desconexas e o barulho do motor pipocando, a nave a chacoalhar, penso que alguma coisa ruim vai acontecer, espero estar enganada.

Deus do Céu! o avião perde altura. Escrevo para fingir, fugir, olho rapidamente sem querer ver as casas lá embaixo se aproximando rapidamente, ouço gritos, nomes de pessoas queridas, pedidos de Deus, santos, o som vai e volta, tudo cheira a queimado, voam estilhaços, agora eu acho que vou encostar a cabeça no ombro de minha tia que parece gelada e parar de escrever, chorar, dormir, porque…


(Tudo se apaga de repente. Alguma coisa se desligou. Do tumulto horrível para um silêncio gelado. Da dor de alguma coisa se rompendo em milhões de estilhaços, a um cheiro forte de uma dor que me vem podre e ruim. Sangue humano, inferioridade. Um vento fino que não é desse mundo penteia o cabelo invisível do meu tio truncado num assento invisível que o mantém de alguma forma preso no ar. Não ouço nada. Todos estão mortos. Eu também estou. Então morrer é só isso?

Ser morto é isso mesmo, quase a mesma coisa, pois o espírito respira o baque, sonda o novo habitário. Outra dimensão? Um cheiro quente de um jasmim muito diferente no ar que parece radioativo. Parece que milhões de olhos me resgatam de algum lugar, para lugar nenhum. Estou em paz. Uma paz que me veste como uma pele que não vejo mas sinto…

Já estive aqui antes, centenas de vezes. Parece que há uma linha fina meio cristalizada que de alguma maneira inexplicável formata o avião recomposto de novo em outra estranha viagem, outra dimensão, muito além do meu conhecimento. As pessoas passam horrorizadas por mim como se num bólido de luz e dor, e depois de alguma altura dessa espaçonave já andam dormindo, dão a mesma volta como se num espiral, num carrossel do tempo se recompondo em imagens, algumas com lágrimas secas, ocas, outras já mais serenas descansando o peso da vida, como se a bruma da morte de algum jeito confortasse a dor da ruptura muito além do fim do mundo. Vejo minha tia mas ela não me vê. Ela está mais calma. Parece ser transparente. Como se fosse de um jeito invisível mas táctil…

Meu tio procura alguma coisa no chão, como se quisesse achar um par de óculos que não precisa mais para enxergar o que ainda verá e se surpreenderá de ver nessa dimensão-luz. Não me reconhecem em mim. É como se eu fosse muito mais para deles, muito mais do que eu imaginava.

É como se fôssemos um só, pela energia que nos une, nos inspira, nos junta, nos formata num só elo, pois somos o centro irmanado desse eixo. Então eu sei tudo, eu tenho a exata sensação de uma verdade eterna. São meus pais, não meus tios. Bem que tinha ouvido umas conversas fiadas. Bem que minha intuição os amava mais que a tios simplesmente.

Sim, o que seria o doador para minha mãe, na verdade doou pra minha tia, que, com a soma de seu óvulo, depois de um tratamento caro, foi finalmente inseminado em minha mãe que tem problema no ovário. Enfim, minha mãe e meu pai verdadeiros são meus tios, minha mãe de registro não podia ter filhos, apenas provocou uma situação que por si só não se sustentou pois me perdeu agora.

Como agora estamos juntos finalmente os três, e não era para eu ter nascido filha de minha mãe de papel, mas um dia no futuro dos meus tios que são meus verdadeiros pais biológicos por milênios, fomos todos finalmente juntados de novo, e nesse estágio recolhidos para uma esfera superior.

Meu pai que era meu tio me viu, quero dizer, meu tio que é meu verdadeiro pai de luz me viu e me abraça, conversa comigo mentalmente. Que energia é essa além da morte e seu véu tenebroso? Traz minha tia que é a minha mãe de luz e ambos me abraçam. Sou energizada por essa luz central, matrix, cósmica. Somos um só agora. Juntos novamente, juntos para sempre.

Estamos de novo voando, mas não num voo humano, táctil, não numa espécie de cavalo metálico se assim se pode dizer, mas como se uma nave-bruma nos levasse para algum lugar muito além do sol, uma outra dimensão eternalmente superior, infinitamente melhor…

Uma voz mental me fala que devo largar esse álbum que não vale nada. Eu nem sei com que mão (que não vejo!) o escrevo, escrevo essas páginas enormes, mas, entre uma dobra do tempo e uma dimensão-luz eu finalmente me desapego – pra que serve isso tudo mesmo? – e o largo sem mais nem menos, ele faz parte do outro lado da zona morta, não é daqui, árvore morta, não me interessa agora, para onde vou não existe tempo futuro, presente, passado, talvez até nunca mais precise desse bobo diário de bordo depois de uma situação dessas, e além dessa minha primeira e única viagem ali se desmanche na fricção da atmosfera, ou suas folhas brancas virem úmidas pétalas aéreas de luz feito lágrimas de adeus, e sirvam em algum lugar, para algum motivo, por algum milagre entre nuvens, ventos, pássaros, raios ultravioletas…

Estou voando agora.

Um voo diferente. Inexplicável.

Eu sou Luz. Eu posso.

Apesar de tudo eu estou feliz.

Todos deviam se sentir assim.

É maravilhoso.

Estou num lar muito além do conhecimento humano.

Estou voltando pra casa.

Tenho que parar de escrever agora porque estamos na zona limite da… porque… eu …)
-0-
Silas Correa Leite

Ralph Peter recebe no programa o escritor Silas

Ralph Peter recebe no programa o escritor Silas Corrêa Leite, que nos apresenta sua obra “O Marceneiro: A Última Tentativa de Cristo”. Neste livro o autor narra sobre o Papa João Paulo II, o exército, terrorismo, discos voadores, milagres, atentados, revelações e profecias em meio ao caos apocalíptico da terra. Uma história reveladora e capaz de aguçar os sentidos do leitor.

Assista uma nova entrevista, todas as quartas-feiras no canal!

Poemas e poesias

Não discuto o sexo dos poemas
nem a vacância de mensagens
muito menos dicções ou mitologias
eles se bastam com arestas
multiplicando zeros e infinitos

não discuto a vertente das poesias
que de si mesmas são distintas
o ritual, a consciência, o melódico
tudo isso são cincerros e egos
questionários, renúncias, pertencimentos

não discuto o simbolismo dos poemas
que por si só podem ter ícones
não quero rótulos, escolas, sachês
e sim rupturas com a sintaxe
técnicas de aproximação, mixórdias

não discuto a lírica das poesias
nem códigos, modismos, planos
quero repertórios de niilismos
e o plano da existência táctil
como réptil com asas, mimetismo

não discuto a lógica dos poemas
quero pluralidades de pedras
o neobarroco, os vetores chaves
são enguias sistêmicas e fazem
do poeta um cacto de bruxo

não quero a vanguarda das poesias
mas elas em si mesmas cibalenas
núcleos, encantários e enzimas
safra de paradoxos críticos
técnica de vernizes diversos

não discuto a poesia no poema
sou um clandestino com lúpus
a lepra de ser-me – sentença
angústia-vívere; roca & singer
baladas de incêndios, odes instintais.

-0-

Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão nosso habitante para o Balacobaco

Silas Corrêa Leite é autor do primeiro e-book interativo da rede mundial de computadores, “O Rinoceronte de Clarice”. O livro está no link Interativos do site http://www.hotbook.com.br O e-book tem 11 contos fantásticos com 3 finais cada: um feliz, um de tragédia e um de surrealismo (ou politicamente correto). O escritor garante que a obra é um sucesso, baseado na quantidade de downloads e acessos à página.

Silas, por que você se tornou Poeta?

Eu era filho de protestantes, pai descendente de novo cristão judeu-português, e genitora mestiça descendente de negros escravos de Angola com índios, e tinha desde o berço essa visão simplória de que tudo no mundo era perfeito, o equilíbrio divinal da natureza, a terra-mãe dando tudo perfeitamente para o comer, beber, vestir, habitar, viver em paz e confortavelmente, aquela noção pueril, até que um bendito dia faleceu a minha avó Maria dos Prazeres Guimarães. Pois sofri um tremendo baque que refletiu pesado no sensorial, no psico-somático, uma tristice que virou minha cabeça, meu mundo, meu entendimento. Então nem tudo era perfeito, nem Deus! A morte era o câncer da vida, a negação do Criador com a criatura. Pois virei ateu de meia tigela (ou mais ou menos isso – eu tinha lá meus cinco ou seis anos nessa nau frágil chamada havência) – escondendo minha estupefata frustração com Deus. Foi um choque. Era questionamento quirera na base do “se foi para destruir, por que é que fez?”. Tinha um vizinho que colecionava clássicos russos e obras de Érico Veríssimo e outros, daí para uma leitura-fuga por atacado foi um andaime. Tornei-me um “ledor” feroz, obsessivo, inveterado (calava fundo ali o meu lado “sentidor” – só para citar Clarice Lispector minha amada musa eternal), e, quando vi, já escrevinhava alhures (no primário ainda, no Grupo escolar Tomé Teixeira, em Itararé, e nos tais Dia do Índio, Dia da Pátria, Dia da Árvore, Dia da Bandeira, lia meus textos ufanistas, que a professora Nancy Penna corrigia, depois, mais pra frente, a Professora Jocelina Stachoviack de Oliveira estimulava, dava força, apostava na minha abstração que ela classificou como fora de série. Família rica quando eu nasci, e pobre quando eu, o primeiro varão da família entrava a estudar (já meio alfabetizado e outras conhecenças mais), saquei que, até poderia ser pobre, mas burro nunca, como o pior analfabeto que, sabendo ler não lê. Seria dose dupla. Saquei que a Escola Pública era o único degrau para o alto, apaixonei-me pela leitura de tudo, e, principalmente, pelas minhas professoras todas. Começara ali a ler não só palavras mas símbolos, gestos, momentos, olhares, acontecências, estimas, resultantes.) Era o bendito fruto de seis irmãs antes de mim (eu era para ter nascido bruxo, mas nasci poeta?), e, mesmo piá de tudo, lia de fotonovelas melosas a gibis, revistas como Intervalo, Seleções, Almanaques, jornais. Meu daí dava-me de castigo, ler aqueles artigões dizendo da briga do Lacerda, Brizola, Jango. Fui politizado antes de ser inteiramente alfabetizado. Aliás, até hoje acredito num socialismo de resultados. Pois, com a soma disso tudo, num crescendo, lendo, “fugindo” nas aventuras, histórias e pencas de conhecenças (ilhando-me de certa forma – chamo meus poemas de Poesilhas), gostei, peguei prumo, assuntei-me. Meu pai, quando eu era mais quase jovem, tinha programa de rádio, ensaiava corais e bandas, compunha músicas sacras, era um belo contador de causos. Eu mesmo, com apenas16 anos, já escrevia para um suplemento jovem que o jornal O Guarani trazia encartado, fazia imitações e paródias nos shows da Jovem Guarda, além de ter sido aprovado em segundo lugar num concurso de Locutores da Rádio Cube de Itararé. Corria o ano de 1968. Por uma série de polimentos afins, tornei-me logo o “poetinha” local, em terra de boa imprensa, boa pedagogia, bons pintores, belíssimo geofísico histórico de cavernas e cachoeiras. Não sei se me tornei ou fui feito, a vida tornou-me, encalhei-me numa sofrência ou coisa assim. Até hoje gosto mais de “ler-escrever” do que de respirar, existir. Poesia canga, ninhais? Despojo. Procurar pegadas íntimas na mandala das palavras. Verter-se. Em um país de contrastes sociais, com muito ouro e pouco pão, faz escuro mas eu canto. Poeta nasce feito? Poeta desabandona-se num não-lugar e alumbra-se, criando o inexistente, feito um desespelho de sub-ser. Hoje perdi-me de mim. Crio feito uma catarse, um onirismo que um refluxo de inconsciência mal-e-mal preconiza a partir de algum certo arquivo genético-sensorial recorrente.

Silas, num poema chamado Muçulmanos, em sua home page visitar link, você diz “E essas orações em peso invocadas para Meca/É o que os tornam Altares – Todos os Muçulmanos…” Todos os caminhos levam a Deus?

Acho que todos os caminhos levam a Deus, de uma forma ou de outra, por linhas tortas ou estradas de tijolos amarelos. Mesmo que seja o “deus” de cada um, segundo a imediata visão, estado de necessidade, grau de merecimento ou estágio de Busca. Todos serão perdoados, de uma forma ou de outra, em mais ou menos dobra de espaço-tempo. Todos serão salvos. Há muitas moradas na casa do Pai, o “Que-Fez”, segundo Haroldo de Campos. Com esse nome ou outro, feitio litúrgico, de compota ou estojo terreal, mas sendo infinito e grandioso, seu perdão é idem. Não nos criou santos, sabia-nos finitos e miseráveis. Se não houvesse o perdão do Criador à criatura ente, então tudo seria mesmo uma mera aventura sideral num teatro-havência como aludiu Shakespeare.
Silas, “O amor é silencioso como um ácaro”, como você canta num verso?
O amor platônico, íntimo e clandestino, antes de tirar o véu, a bruma (paixão & loucura), despertence-se, é como um ácaro, um esporo, um átomo procurando o tomo par, feito um silêncio quase prece, correndo o risco de, no devir, tornar-se até poeticamente falando, um Porta-lapsos. Mas, paradoxalmente, também pode ser um eco no abismo, um grude de circunstância, uma polenta que desandou. Pior: quando grita no depositário de luz da cena de origem, tem loucuras que a própria lucidez desconhece. Porque o amor é faca de dois lumes. Caibro e caixilho.

Silas, como você encara a Poesia atual?

A Poesia atual, brasileirinha ou brasileiríssima, está meio que “emepebelizada”, meio para “liric” (letra de música em feitio de verso prosaico), do que propriamente poesia pura. Mas, também, o que é mesmo Poesia, nesses tenebrosos tempos pós-qualquer coisa? O que é a exata pureza do fazer poético, na gamela radical de tantos enfoques e tecnologias? Adoro Wally Salomão, Arnaldo Antunes, João Scortecci, Ademir Antonio Bacca, Luiz Antonio Solda, Soares Feitosa, Alice Ruiz, Paulo Leminski e Antonio Cícero, entre outros, mas sou macaco de auditório de Fernando Pessoa, o melhor poeta do mundo em todos os tempos, Drumonnd, Jorge de Lima, Carlos Nejar, Manoel de Barros, Bandeira, Castro Alves, João Cabral de Melo Neto e Hilda Hist, que considerado a melhor poeta mulher do Brasil em 500 anos. Há muitos poetas bons no Brasil, mesmo fora da chamada grande mídia, alguns até descobertos por Antologias que, nem sempre completas, ainda assim fazem-nos esse favor de descobrir um e outro inédito e anônimo, o que já vale o livro, a junção, o espaço aberto e saudável da veiculação. É claro que temos os poetas de ocasião, de panelas, de trupe da imprensa, de clubes e esquinas. Eu que mal sou de mim sozinho (e um poeta não precisa de solidão para ser sozinho), não estou em antologia nenhuma, se bem que devo sair na próxima Revista Poesia Sempre, por obra e graça do Ivan Junqueira, e, lendo tudo e todos, aprendo até como ser e como não ser. Afinal, nasci analfabeto, vivo estudando e vou morrer aprendiz. E depois, a fama é reles, não é mesmo?

Silas, a Poesia virou coisa de Professor?

Pois é, a Poesia é mais rebento de professor, jornalista, profissional liberal, louco, autista, viciado, suicida, bacharel, artista, do que do povão mesmo que mal tem um tostão pro leite e mel, sequer brioches. Eu, em cada sala de aula, torno um aluno especial, num amante da boa MPB, da leitura, da poesia, mostro um Bob Dylan, um José Nêumanne Pinto, sapeco aqui uma Sylvia Plath, depois um Chico Buarque ou Gilberto Gil, volto a reinar com um haikai, uns versos brancos, e assim, tento, solitário como um lírio, tecer o amanhã, limando mais um ser sensível em terra de primatas. Pelo menos primatas para mim que era um rapaz que amava Os Beatles e Tonico & Tinoco, e hoje sobrevive num mundeco de um estúpido consumismo bobo, rococó, onde uma globalização neoliberal também de forma nefasta globaliza a violência em todos os níveis, a ignorância coletiva de quem pensa que pensa ou acha que é o que não é, produzindo burrezas por atacado.

Silas, qual a ligação que você tem com o Guimarães Rosa?

O Rosa eu só fui ler (e adorar) de pleno íntimo aceite, já na casa dos 20 anos. Ele, junto com o Machado de Assis, se fossem europeus seriam “Nóbeis”. Tenho umas pinceladas do Guimarães Rosa, mas não o sou totalmente, claro. Entro mais num parafuso do realismo fantástico, surrealismo, com poesia nos textos, regionalizando pro sul-caipira. Meus amigos dizem que eu sou mais um “Silas Lispector”. Acho que é um liquidificador de tudo que bate e volta, numa mistura saudável.

Silas, qual é o lugar para a prosa na sua escritura?

Eu sou só um metido a poeta rueiro e descalço, que acabou se embarulhando na prosa e ficção-angústia… Como descobri, por intermédio de editoras pouco confiáveis do ponto de vista cultural mesmo (por incrível que isso possa parecer) que não adiantava escrever Poesia, que não há mercado, espaço, que “poesia não vende”, para sair do limbo resolvi escrever contos, mas não os comuns, quis ousar, sair do sério, dar com os fulcros n’água. Aliás, poesia não deveria de se vender, mas ser dada de lambuja, de troco, como moeda de ocasião feito pertencimento de maria-mole-queimada, caixa de fósforo, bala paulistinha, picolé de groselha preta, pirulito de limão. Entrei pro Grupo/Movimento Infâmia Literária (do Nelson Oliveira – Prêmio Casa de las Américas/Cuba – Romance Subsolo Infinito/Companhia das Letras) e, com experiência básica de crônicas e jornalismo (inclusive Oficina de Jornalismo na ECA/USP e elogios de Ricardo Ramos em curso de Redação na ESPM), passei a ganhar mais prêmios como contista, do que como poeta. Daí pra cá, vim formatando livros, romances, coletâneas de microcontos, trabalhos infanto-juvenis, poemas temáticos, poesia para a juventude carapintada (prática educacional vivenciada) e outros mais, um monte. Coisa assustadora, talvez digna de um Guiness Book, Curta-Metragem, Documentário ou Globo Repórter. Agora mesmo, estou com um romance vivencial na Geração Editorial, de um cara cabeça que é o Luis Fernando Emediato, e um outro com a Editora Gente. Muitos outros foram “recusados” (mal avaliados?) por grandes editoras do eixo RJ-SP. Também, por quase dois anos, estou com um livro de contos (muitos premiados) em poder do Bernardo Adzenberg (Diretor de Conteúdo da Folha Online) para ser prefaciado, e também um de poemas em poder do Poeta José Nêumanne Pinto para ao mesmo fim. Estou aguardando, vivenciando a expectativa de um bom retorno nesse propósito. Esse ano já fui premiado num Concurso de Poesia do Sesc/Rotary de Cornélio Procópio, Paraná, (poema criticando os Outros 500 do “Achamento” do Brasil), e também no Concurso Ignácio Loyola Brandão de Contos, de Araraquara. Já pensei ate em traduzir e tentar editar no exterior. Será que tenho que ser mais um a morrer inédito, deixando meu acervo para alguém do Depto. De Letras da USP, no futuro, escrever uma tese sobre minha luta inglória? Ai de mim!

Silas, a Poesia deve ser engajada?

Toda Poesia tem – o homem é um animal político, dizia Sócrates – o seu lado de engajamento tácito ou não. Poesia neutra ou chinfrim como texto alheio à realidade (e tongo, saranga) do Cony, não significa nada, não tem nada a ler. Não cria gume, não ela, não tem visão plural-comunitária. Eu, como Manoel Bandeira – Saravá Celso Furtado! – só acredito em arte que seja libertação. Não separo o Poeta do Ser Cidadão. Melhor uma poesia engajada e temática nesse fito precípuo de ser social, humana, do que uma poesia xerox, trivial ou matemática como pelotão de isolamento. Poesia mostra o avesso do haver-se, descasca a cebola do indizível, traduz o sagrado-profano com questionário íntimo novo, mexe as candeias e sacode o bolor do tédio com vinagre. Gosto da Poesia que arranca o leitor (também receptor afinado de vislumbre) do lugar comum, e toca fogo na canjica desse país de jecas janotas e boçais (têm um pé na cozinha do ego doentio); cheirando a azedos de estadias-fugas em esgotos góticos de Miami. Habemus Poesia? Tô social. Logo, eila pisando na tábua de carne dessa terceirizada insensibilidade que maquia um tal ISO 2001: a sub-sobrevivência instintal

Silas, todo bom poeta é engajado?

Todo bom poeta é bom poeta e ponto!. O resto é colcha de retalhos de mosaicos de percursos, sais, estadias e viagens interiores com cadarços de palavras. Para um potencial de Sebastião Salgado, quanta água com açúcar deu flash por debaixo de pontes e arquiteturas frias, superfaturadas? Temos um holocausto nas ruas do mundo – pior que uma guerra mundial, um nazismo – e ainda falam na montada queda do Muro de Berlim, com tantas outras “fronteiras” e muros no capitalismo-câncer financiando o leviano engodo neoliberalismo açodado pelo lucro nojo, lucro fóssil de mais riquezas injustas (e impunes) na ciranda financeira de agiotas internacionais. Velhos, crianças, sem teto, sem terra, sem pátria, sem emprego, sem Amor, excluídos sociais entregues à própria sorte – ninguém quer ver isso? – enquanto o futuro do Brasil ao FMI pertence, com FHC (ex-sociólogo, ex-comunista, ex-ateu) promovendo privatizações-roubos sem auditorias de incompetências herdadas no trato com a coisa pública (um estado público na verdade privado pelo tucanato amoral e decadente) ainda dizendo que o Plano Real deu certo. Pra quem? Para quê? Trocamos nosso suado dinheirinho pau a pau pelo dólar, e hoje quanto vale? Quem vai pagar por isso? Quem é o ladrão, o chefe da quadrilha internacional? Dão milhões para banqueiros ladrões, milhões para universidades privadas incompetentes, e chamamos isso de modernismo? Que golpe é o PAS, um funesto “Programa de Assalto à Saúde”?. Que empulhação é a tal Reforma de Ensino que não reforma nada, fecha unidades escolares, paga menos a um educador do que a um motorista de ônibus, dando verniz novo a quadrilhas velhas? As máfias governam os governos. Todo Ser Humano, Ser Cidadão, até por uma questão de foro íntimo de sobrevivência ética, emocional, de resistência, tem que ser mesmo engajado. O importante, afinal, não é que a emoção sobreviva?

Como é ser um “plantador de sonhos” como você diz?

Plantar sonhos é não passar em brancas nuvens nesse miserê cultural. Se eu deixar de escrever agora, a insensibilidade vence. Tenho que morrer lutando, para que demonstre que, pelo menos a minha sensibilidade Venceu. Plantar sonhos é preencher com humanismo a minha quantia diária no cheque em branco de cada dia de vida, sendo verdadeiramente Ser e verdadeiramente Humano, nesse pais que há grande celeiro de babaquaras, e onde os imbecis estão no poder, por isso os inteligentes têm que se unir, no amor e na dor. Plantar sonhos é ser meio Rimbaud pós-moderno, meio Lord Byron, meio Neruda, meio Tolstói, meio Plinio Marcos e Nelson Rodrigues. Plantar sonhos é tentar arar consciências, deixar a semente-arte (a melhor pedagogia é o exemplo), como uma mensagem-página de não aceitação, de crítica ao comodismo, para o futuro. Se houver futuro no futuro, já que a cada século piora a qualidade do ser enquanto espécie.

Silas, mas o sonho não acabou?

O sonho acabou. Mas o artista sonha um sonho novo a cada dia. Na sua utopia visionária única, pincela, orna, conduz, não é conduzido. O Capitalismo é tão podre e vil como o Comunismo imposto de cima para baixo, pela força. O Marxismo acabou? Nunca se estudou tanto Karl Marx do que hoje em dia nas universidades americanas. O sonho acabou para o cara pálida que se matou, anulando-se, se massificando nessa correnteza de amebas ao estilo quase grife de: “acompanhe a maioria/Ande sozinho.” Todo artista revisa o sonho anterior, cria outros, produz, refaz. E depois, o que é o sonho de cada um por si? Status, posses, poder. (O status de sítio de uma grife com refil.) E o sonho de todos por todos? Esse não vai acabar nunca. A verdade, como a tal terra prometida é, como já cantou Renato Russo, também pode ser amar as pessoas como se não houvesse amanhã…

Silas, qual é o lugar que a música ocupa em sua vida?

Sou filho de músico, consigo compor com uma facilidade incrível, inacreditável. Faço baladas, blues, assim sem mais nem menos. Você sugere um tema e eu canto incontinente. Você vem com a música pronta e eu de presto encorpo a letra. Meus poemas são como mantras-banzos-haikais-salmos-blues. Certa feita peguei um poema do Drumond e fui cantando em cima, com a música casando direitinho. De outra feita, abri um livro do Garcia Lorca e cantei o poema (de uma mulher colhendo azeitonas) que parecia moda da Mercedes Sosa. Tenho umas letras com o Barão Vermelho, fiz até uma espécie de “Hino do Frejat”, uma letra com o grupo de rock Detonautas do Rio de Janeiro, fiz o Hino ao Itarareense, estou fazendo o hino de minha escola atual, já fiz um outro Mantra em parceria com um aluno de Ética e Cidadania de uma escola de Vinhedo (Instituto Sant’Anna). Quem quiser trabalho meu, é só me contatar no e-mail poesilas@terra.com.br –

Você tem algum “mote” de trabalho?

Vários: silêncio, tristeza, solidão, justiça, humanismo, morte – Acho que a Morte é a minha musa. A morte é o centro do universo? É morrendo que se nasce para a vida eterna? Eu faço versos como quem morre, disse Manuel Bandeira. Tudo é Caos. Tudo é “danação” de pedra. A consciência é o registro de vida nesse plano? No começo era só o abismal, até que um Poeta (o primeiro?) deve ter nominado as coisas, e deu nome ao começo, meio e fim. Mas, e quando a Morte matar a morte?

Silas, qual o papel do escritor na sociedade?.

O papel do escritor na sociedade é não ter papel nenhum. Milton Santos (esse daria um bom presidente) não quer ser político. Quer ser ele mesmo digno, transparente. Betinho só queria dar seu testemunho de vida, sem ter papel de rosto algum. Desconfio muito de quem quer papel disso e daquilo, só para enfeitar o pavão da mesmice capenga. O papel do escritor é, apesar de tudo, continuar escrevendo, registrando, denunciando, colocando o dedo em feridas históricas de um país de hipócritas e antros de exclusões. Os melhores Escritores do mundo, eram, e apenas eram circunstancialmente, diplomatas, professores, peregrinos, jornalistas, compositores, profissionais liberais, funcionários públicos, vagabundos, amantes, boêmios, mal resolvidos, mas, principalmente eram independentes para errarem e acertarem (com isenção) prosas e versos. No link Poetinha Silas do site de Itararé visitar link – consta uma breve bibliografia minha até 1998, mas eu não falo muito de cursos, vida profissional. As crianças e os jovens são minha plantação de sonhos, canteiros, a minha mensagem de amor para o futuro. E fazer poesia a qualquer momento, por qualquer toleima ou mixórdia de achar-me nulo ou atado, é a minha forma de pedir paz, pedir justiça. Afinal, a Esperança é a inteligência da vida. Como não há sensações no esquecimento, escrevo, lavro, vou amealhando matizes e iluminuras de meu próprio percurso-vida. E que Deus tenha piedade de nossa miserabilidade, onde a própria poesia tende a ser um mero Eco no Abismo. “Ser Poeta é a minha maneira/De chorar escondido/Nessa existência estrangeira/Que me tenho havido”

Silas, para encerrar, o que você gostaria de dizer?.

A literatura atual, como todo o mundo, está numa época de “travessia”, de entressafra. Eu mesmo, de uma hora para outra, virei escritor virtual, porque tive uma ótima idéia (e um ótimo livro, segundo críticos, intelectuais, jornalistas, escritores) foi recusado como “Literatura em 3 Dimensões” pela Companhia das Letras, e acabou sendo descoberto e virando e-book de sucesso, estando no link Interativos do site http://www.hotbook.com.br, onde uma coletânea chamada O Rinoceronte de Clarice tem 11 contos com 3 finais cada, um feliz, um de tragédia e um de surrealismo ou politicamente incorreto, permitindo ao leitor internauta copiar grátis pro seu pc, votar no melhor final do conto, bem como – e esse é o lado interativo que o projeto pioneiro propõe – pode escrever um final todo seu, e encaminhar pro provedor. Ao final do ano deve ser escolhido o melhor final do leitor para cada ficção, e anexado ao livro que, certamente, cedo ou tarde será impresso, desde que um gerente editorial tenha um instante-fragmento de insight e enxergue longe, enxergue melhor minha obra como um todo. Foi escrito em 1968, e ainda hoje é pioneiro e único do gênero na rede mundial da Internet, a partir de pesquisa feita em Nova York. Ganhei vários prêmios, até na USP e na Universidade do Oeste do Paraná (Concurso Paulo Leminski de Contos), fui elogiado, entre outros por Jamil Snege, Elio Gaspari, Ricardo Ramos e Revista Aldéa da Espanha, estou em Antologia Multilíngue de Poetas Contemporâneos da Itália (entre outros países), e permaneço inédito em livro próprio no Brasil. Acredite, se quiser. Imagine se eu fosse amigo de algum dono de editora com alguma sensibilidade, visão cultural e noção de literatura, e não um mero apreciador do tilintar de uma caixa registradora?. De qualquer maneira, agradeço a gentileza desse precioso espaço precioso, a força, a visão, a leitura dos meus textos estranhos e loucos, esperando que um dia eu possa, feliz e desmamado do ineditismo, anunciar um coquetel para lançamento de um livro de contos, um romance, uma novela. Do CAOX nasce a luz? Tudo é possível. Torço por isso. Milagres acontecem… Obrigado e até a próxima.

Fonte: http://www.gargantadaserpente.com.br/entrevista/silas.shtml

Bia, Olhos Azuis para teens e outros leitores

Dois adolescentes sensíveis que fazem uso
dos próprios medos para vencer os piores
obstáculos […],que transformam os próprios
fantasmas em porta-vozes de uma nova
realidade […]

Confesso que me apaixonei pelo livro Bia, Olhos Azuis (e sua graciosa personagem principal) obra de autoria da Tereza Yamashita e do Luiz Brás. Talvez por reflexo de tantas mulheres em minha família, ou pela grandeza da alma feminina que compreendo muito bem e influenciou sobremaneira o riscado todo de minha vida de aventureiro atiçado, a Bia me cativou logo de cara, quero dizer, desde logo, da primeira leitura inicial do romance juvenil mas que serve para todas as idades.


Os autores: Luiz Bras e Tereza Yamashita.
Comecei a ler o livro de uma pegada só – muito encantado com o esmero do trabalho gráfico também – e só parei ao final das 102 páginas, brabo, porque tinha acabado a história e eu queria mais; porque podiam continuar a aventura, podiam escrever mais de tão gostoso que estava a contação-narrativa. Que Bia essa, ora essa.

Os autores são a Tereza, competente designer gráfica, e o Luiz Braz que, claro, é um simples heterônimo (…) até modesto pela grandeza do premiado literato Nelson de Oliveira, já que ambos assinaram o livro aqui a quatro mãos por assim dizer, o conjunto final valeu a pena mesmo.

Voltando a Bia Olhos Azuis, só posso dizer que adorei e história bem contada do começo ao fim, numa linguagem bem cativante, quem ler vai gostar, essa é a ideia de um bom livro. Gostei também dos espetaculares desenhos dentro do livro, que davam a entender (compreendi assim) como se uma ótica diferente, feito um retrato-visão da elétrica personagem principal que é deficiente (o desenho dava a impressão de ser uma sua “visão interior”?), sendo cega e contando seus conflitos da primeira infância, de criança, de irmã, de deficiente, de filha, aluna e, claro, numa reinação de personalidade agitadíssima não acomodada pelo problema da falta de visão não lhe tirou o ritmo maravilhoso de vida. Uma lição e tanto essa história.

Graciosamente bem escrito, é como se a narrativa tranquilamente tomasse o ledor pela mão e o levasse a passear no bosque da história direta, nas entrelinhas dela, na fantasia costuradinha com o emprego de uma linguagem peculiar, à professora amiga e lá também com seus percalços, desde o gato caseiro e traquinas ao irmão e seus amigos, mais situações de conflitos próprios dessa faixa etária, depois as brigas, rompimentos, cobranças, o primeiro possível amor, as relações e suas dubiedades, funcionando ainda melhor com as narrativas (muito bem construídas) da troca de mensagens por e-mails, um diálogo virtual de um irmão distante, dando um belo contexto até bem moderno que funcionou legal para fechar o romance, deixando o leitor com sabor de quero mais. Acabou?

Muito bem editado (uma editora nova possivelmente), o livro daria um bom filme e seria extremamente didático, obra que certamente irá engrandecer a gama de trabalhos para esse público de teens e tempos sequentes, portanto deveria ser adotado nas escolas públicas que pensam o jovem com um cidadão emergente; deveria também ser indicado por ONGs e fundações de renome que trabalham com crianças e jovens, principalmente nesses tempos de difíceis relações, quando Bia, Olhos Azuis poderá ser muito bem trabalhado no contexto do processo ensino-aprendizagem; daria um bom suporte de abertura de informações e produção de conhecimento na área de humanas; com a Bia Olhos Azuis ajudando muito a compreender os problemas e desafios nas relações sociais, daí se sacando combiao a relação com os chamados teens, baladas e amores, já repercutem na base primordial que o jovem precisas ter para ser e vencer como ser social.

O livro poderia sim virar uma série, ter uma seqüência, permitindo assim ao jovem ter essa abertura literária de ver o colega “diferente” de si com outra visão, e o deficiente como parte de um meio em que nem todos são iguais, por diversas razões e é exatamente isso que torna belo o mundo, a igualdade nas diferenças.

Quando um rato de sebo como eu, gosta tanto assim de um trabalho literário de vulto por ser preciso, agradável e bem composto de idéias e evoluções narrativas, podem apostar que fará muito sucesso, vai fazer bonito. Vai atingir o propósito ao qual se propõe e deixar a sua mensagem pelo conteúdo e certamente pelo viço da contação gostosa. Antes que eu me esqueça, as ilustrações falsamente desfocadas (e por isso mesmo bem sacadas) são do Rogério Soud.